Em relação aos fatos que estão levando ao encerramento do Projeto Bate-Papo Astronômico (BPA) em seu formato atual e, principalmente, em relação às declarações dos gestores do poder público sobre a demanda do BPA da manutenção da infraestrutura de segurança no Santa Maria Tecnoparque, necessito esclarecer alguns pontos e expor alguns pensamentos.
Para podermos começar essa conversa, preciso tornar bem claro o que é o BPA: É um projeto executado por três amigos apaixonados por ciência e que dedicam seu tempo livre (ou seja, aquele tempo escasso que existe entre cuidar da vida profissional e da família) para promover e divulgar ciência da forma mais responsável possível.

E sim! O BPA é um projeto amador! Nunca, jamais foi cobrado e nem recebido um centavo nas ações do projeto. A atuação no BPA não é a atividade profissional de seus idealizadores. Enquanto a gestão da cidade tenta tornar isso uma marca negativa, ser amador é, na verdade, motivo de orgulho para nós. Mas note: Ser amador é muito diferente de ser mal feito. Há muito trabalho, privado e público, que é profissional e terrivelmente executado.
O dinheiro investido no projeto vem, na grande maioria, de recursos próprios dos idealizadores. Custeia desde um parafuso para instalar uma câmera para olhar para o céu até passagens aéreas para trazer um palestrante que inspire as pessoas.
Muitos nos sugerem profissionalizar o projeto, “abrindo CNPJ” e cobrando pelas ações realizadas. Obviamente que buscar fontes de recursos ajuda a manter e ampliar o projeto, mas o objetivo do BPA sempre foi democratizar o acesso à ciência, jamais elitizá-lo. Queremos que crianças e adultos de comunidades carentes tenham a mesma oportunidade que seus colegas mais afortunados. É assim que a ciência muda vidas.
De toda a forma, este não é o cerne da discussão e serve apenas para desviar o foco do que realmente interessa.
O BPA não é do IFFar e nem do Santa Maria Tecnoparque. O BPA é um projeto de divulgação científica idealizado por cidadãos santa-marienses (dois ainda residentes na cidade) com a intenção de aproximar o público do universo tecnológico e científico. As instituições apoiam o projeto. O IFFar nos abraça como um Projeto de Extensão e o Santa Maria Tecnoparque cede infraestrutura. A contrapartida é que o BPA divulga e associa os apoiadores à causas nobres.
Em relação à celeuma que se formou com o anúncio do fim do BPA, é importante ressaltar que antes de chegar neste ponto, o(s) problema(s) foi(ram) debatido(s) e explorado(s), principalmente nos bastidores, muito antes de chegar até o público.
Sei que não é o momento de apontar os problemas da cidade. A filosofia do BPA é exatamente contrária à isso. Mas em defesa da honra de meus amigos de BPA, relato que estive em Santa Maria há poucas semanas e é triste e assustador o sentimento de descaso no cuidado com a cidade. Por isso, não me surpreende o tratamento recebido sobre o assunto. Tratamento este que, na realidade, me parece explicar muito bem o que vi quando estive de volta à minha cidade natal.
É um choque de realidade que a gente só consegue compreender quando se vai além do Morro das Antenas. Entendo que quem está na lida cotidiana talvez nem consiga perceber e infelizmente com o tempo nossos olhos se acostumam, de forma que até o que é ruim se torna normal:
Cidade suja, pichada, mato alto? Normal.
Esgoto a céu aberto? Normal.
Crateras nas ruas? Normal.
Cidade escura? Normal.
Falta de segurança? Normal.
Pois é. A falta de segurança é tratada como normal pela cidade. Tanto que os gestores lutam e esperneiam para dizer que essa demanda por parte do BPA está errada, porque, afinal, está tudo normal. Quem quer a manutenção da segurança está “errado”, pois o normal é que seja ruim.
E não é para a prefeitura oferecer segurança privada ao projeto, como nos foi insinuado. Nunca foi assim e não seria assim agora! Mas é, sim, sobre a cidade dar continuidade na manutenção de uma infraestrutura de interesse público – o Santa Maria Tecnoparque – com a atenção e segurança merecida. Manutenção que vinha sendo dada e foi abruptamente interrompida.
Perceba que profissionalizar o BPA não resolve o cerne do problema. Angariar fundos de colaboradores e usar os recursos para cobrir as despesas de segurança de um condomínio empresarial seria injusto não só com quem confia no BPA como produtor e divulgador científico, mas também com os contribuintes da cidade, que não veem seus impostos sendo aplicados conforme devem ser.
As respostas direcionadas ao BPA pelo poder público são aulas exemplares de como não tratar os problemas de seus cidadãos. Tentar desqualificar um projeto, as pessoas e se esquivar de suas obrigações é covarde e irresponsável. Em uma gestão séria, tudo que acontece na cidade, de bom e de ruim, é (ou deveria ser?) responsabilidade de seus gestores.
Mas ok. A mensagem foi recebida e compreendida: A gestão da cidade não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Os problemas da cidade, seus cidadãos, eleitores e pagadores de impostos não são de interesse ou responsabilidade dos gestores. Pode até ser lamentável, mas já não considero inesperado.
Santa Maria que já foi “Cidade Cultura” e “Cidade Universitária” hoje é conhecida nacionalmente por motivos ruins. Posso relatar que em todos os lugares em que vou, quando me perguntam e digo que sou natural de Santa Maria, sem exceção, a reação de quem perguntou é de pesar e tristeza.
Com muito empenho o BPA estava ajudando um pouco a mudar isso. Fundamento esta opinião tomando como exemplo todas as notícias (e não são poucas!) regionais e nacionais que foram ao ar em decorrência do BPA. Sempre levando o nome da cidade de uma forma positiva. O próprio Santa Maria Tecnoparque, desconhecido até mesmo entre os moradores de Santa Maria, estava se tornando referência.
Para finalizar: O BPA existe há muito tempo. Já teve diversas formas e formatos. O atual dependia da infraestrutura que era fornecida pelo Santa Maria Tecnoparque em parceria com a Prefeitura de Santa Maria. Na ausência da infraestrutura, o projeto acaba como existe hoje, mas vai se adaptar e se reinventar.

Com tantos amigos que o BPA já fez pelo mundo ele prova que é muito maior do que só nos três. É também muito maior do que Santa Maria, com seus problemas profundos e soluções rasas.
O BPA vai sobreviver.
E quando a cidade quiser voltar a ser reconhecida por bons motivos e lembrada com alegria e orgulho, podem contar com a gente: O BPA continuará aqui, querendo ajudar a mudar a vida de Santa Maria através da ciência.
Diogo M. Custodio
